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sábado, 20 de março de 2010

O menino que cantava para o mar

Como quem não deseja provocar a cólera do mar, ele certamente sentava-se sozinho e calado olhava. Olhava até saber que era a hora da música começar. E como começa ? Ambos não sabíamos, apenas esperávamos o sinal. O mar era a primeira voz, e sempre será. Ao seu sinal ele começava a cantar, e eu ali distante, fechava os olhos e ouvia aquele dueto. A princípio, os assovios eram como quem canta pra dentro, a fim de não afrontar a imensa siberania do elemento líquido maior. Até que Ele, que é maior permitisse ficar silencioso e o outro pudesse finalmente subir o tom de seus ossovios. Em volta, como animais, os homens espalhavam-se pela escuridão, uma dança de vultos, cada qual tentando seduzir a sombra que mais lhe aprazia com sua indiferença. E ele lá, cantava e banhava-se na prata escuro-luzente do mar. Éramos dois ?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As Lições de Vôo

Quando era criança, o que não faz muito tempo, uma coisa que me deixava muito admirado era a capacidade de voar. Lembro que na escola eu passava correndo entre os corredores, talvez na esperança de que em algum desses saltos eu finalmente pudesse romper com essa gravidade plástica que me prende ao fixo. Mas isso nunca aconteceu no mundo das coisas concretas. Outra memória que me recorria eram os saltos do teto da casa. Subia na laje do banheiro e pulava com um guarda-chuva na mão em direção aos colchões deitados no solo. Aqueles momentos foram meus primeiros rituais, meus primeiros exercícios de liberdade. Talvez eu sinta falta disso, mas substitui os saltos pelas palavras e os guarda-chuvas e colchões  por caneta; o sentimento permanece.